Rhythms of Life

August 1-5, 2017

Fisiologistas Brasileiras em Destaque:

Professora Maria Marques, UFRGS

Sua trajetória acadêmica:

Graduada em História Natural na PUC-RS em 1950, iniciou sua trajetória acadêmica, em 1953, como Auxiliar Técnica do recém criado Instituto de Fisiologia Experimental da Faculdade de Medicina do Rio Grande do Sul. A criação desse Instituto, apoiado pela CAPES, foi o marco sinalizador do início da pesquisa em Fisiologia na Região Sul e se tornou um Centro de Formação de excelência, que atraiu docentes e pesquisadores de todo o País. Atuou na equipe liderada pelos Professores Bernardo Houssay (Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1947) e Pery Riet Corrêa, até a extinção deste Instituto. Em 1954, publicou seu primeiro trabalho científico, dando início à linha de pesquisa em Fisiologia Endócrina, que é uma das principais linhas de pesquisa do Departamento de Fisiologia da UFRGS até hoje. Obteve o título de doutora em Ciências pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP, em 1965, com a tese intitulada “Efeitos do glucagon no metabolismo de glicídios de Chrysemys dorbigni (Reptilia, Chelonia)” sob a orientação do Prof. Dr. Paulo Sawaya. Estagiou em diversos laboratórios de pesquisa no exterior e foi Professora Visitante na Thomas Jefferson University (USA), na Georgetown University (USA) e no Center for Blood Research, em Boston (USA). Estabeleceu e foi incentivadora de diversos intercâmbios internacionais, que facilitaram a implantação de novas linhas de pesquisa e novas técnicas no Instituto de Fisiologia Experimental. Desenvolveu como principal linha de pesquisa a caracterização do receptor de insulina em invertebrados e vertebrados, em especial, em répteis. Enfatizou a transdução do sinal da insulina e suas ações metabólicas, tendo demonstrado a importância desse hormônio na manutenção da homeostase da glicose nesses grupos. Os estudos sobre a ação da insulina em molusco foram um marco importante para o conhecimento da filogenia da família da insulina. Publicou 54 artigos, muitos deles com colaboradores internacionais. O reconhecimento e a repercussão internacional de seus trabalhos lhe valeram convites para contribuir com capítulos de livros especializados editados no exterior. Em 1970, com a reforma Universitária, o Instituto de Fisiologia Experimental foi extinto e ela ingressou como Profa. Assistente no Departamento de Fisiologia, Farmacologia e Biofísica da UFRGS. Galgou todos os postos da carreira universitária, sagrando-se Professor Titular, com grande brilhantismo, em 1986. Além de sua atuação como docente de graduação, onde foi diversas vezes escolhida como Professora Homenageada, idealizou e organizou a criação do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas: Fisiologia, que teve o Mestrado credenciado pelo Conselho Federal de Educação, em 1976, e o Doutorado reconhecido em 1994. No PPGCB: Fisiologia, a Profa. Maria orientou 15 dissertações de Mestrado e 7 teses de Doutorado (1976-1998). Seu entusiasmo e determinação foram fundamentais para a continuidade da pesquisa em Fisiologia na UFRGS, onde exerceu atividades de pesquisa, de docência na graduação, na pós-graduação e na extensão por 45 anos e ainda participou, ativamente, na gestão universitária. Atuou em diversas instâncias da administração da UFRGS, onde se envolveu com inúmeras questões acadêmicas, mesmo quando estas não diziam respeito à Fisiologia. Por exemplo, como gestora foi grande incentivadora da criação do PPG em Música, em tempos em que fazer pesquisa era algo raro e na área de Música era quase inconcebível. Além disso, foi membro do Conselho Superior da FAPERGS, avaliadora e consultora da CAPES, do CNPq e da FINEP, Executora de projetos FINEP, presidente da Sociedade Brasileira de Fisiologia (SBFis) e da Sociedade de Fisiologia do Rio Grande do Sul (SFRGS).

A relevância de sua trajetória revela-se nos prêmios recebidos como Professora Emérita da UFRGS em 1997, membro da Academia Brasileira de Ciências em 1996 e comendadora da Ordem Nacional do Mérito Científico, em 1998, entre outros.

Sobre ela:

Um raro exemplo de dedicação integral e exclusiva ao ensino e à pesquisa. Uma cientista entusiasmada, um exemplo de dedicação, de retidão de conduta, de administração responsável e amor à ciência. Seus êxitos administrativos e científicos trouxeram importantes contribuições para a fisiologia endócrina, mas representam apenas uma parcela de seu legado. Tão ou mais importante foi o exemplo que deixou aos seus sucessores, estimulando incansavelmente o desenvolvimento da pesquisa, a dedicação ao trabalho e a priorização dos interesses coletivos e institucionais.


Profa Ana Maria de Lauro Castrucci, USP

Sua trajetória acadêmica:

Obteve o título de doutor em Fisiologia Geral pela Universidade de São Paulo em 1974, sob orientação do Prof. Erasmo Garcia Mendes. No ano seguinte ingressou como docente na mesma Universidade, permanecendo até os dias de hoje. Orientou 22 mestrados, 14 doutorados e supervisionou 12 pós doutorandos, dentro dos seguintes temas: regulação fótica, térmica e hormonal da pigmentação nos vertebrados com ênfase em receptores, mecanismos de transdução de sinal e expressão de opsinas e genes de relógio biológico, o que resultou na publicação de mais que 130 artigos científicos. A relevência estudos desenvolvidos se refletiu também em vários prêmios recebidos ao longo de sua trajetória: eleita membro da Academia Brasileira de Ciências em 1996; um dos 10 mais importantes "breakthrough of the year" em ciência pela revista Science, em 2002; recebeu o título de comendadora da Ordem Nacional do Mérito Científico pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, em 2005 e foi eleita membro da Academia de Ciências do Estado de São Paulo, em 2008.

Sobre ela:

Uma cientista incansável e entusiasta na formação de recursos humanos, que com postura ética e forte disposição de inovar, trouxe importantes contribuições para a fisiologia dos fotopigmentos.

Sua Pesquisa em destaque:

No início dos anos 2000, uma grande descoberta ampliou nosso entendimento de como percebemos a luz ambiental. A Profa Ana Maria, foi integrante do grupo de pesquisadores, liderado pelo Prof. Ignacio Provencio (University of Virginia), participando ativamente dos experimentos que culminaram com esta descoberta. Foi demonstrado que a melanopsina, um pigmento presente na retina de mamíferos, é responsável por ajustar nosso relógio biológico à luz ambiental. Esta descoberta baseou-se em estudos com animais portadores de degeneração retiniana (ausência de fotorreceptores clássicos visuais) e nocautes para a melanopsina, os quais exibiam ausência de foto-arrastamento, perda da resposta pupilar e perda da supressão fótica do transcrito da enzima chave da síntese de melatonina. Em função destes achados, hoje sabemos que a rota neural que informa nosso relógio biológico sobre o fotoperíodo não é a mesma da percepção luminosa formadora de imagem. Este pigmento absorve luz no comprimento do azul, tal informação fótica ao atingir o oscilador central promove uma série de alterações moleculares, que gera respostas rítmicas controlando a maioria dos processos vitais. Estes achados têm contribuído para o entendimento do funcionamento dos ritmos circadianos. Sabemos que a quebra da sincronia temporal interna advindas com os estilos modernos de vida leva a patologias, caracterizando o que chamamos de cronoruptura. O conhecimento da percepção luminosa para fins do ajuste do relógio biológico gerou nova perspectiva para o entendimento de patologias associadas a cronoruptura, tais como obesidade, hiperglicemia, hipertensão arterial, resistência à insulina, dislipidemia, depressão, síndrome metabólica e até mesmo câncer.

1: Provencio I, Rollag MD, Castrucci AM. Photoreceptive net in the mammalian retina. This mesh of cells may explain how some blind mice can still tell day from night. Nature. 2002; 415(6871): 493.

2: Panda S, Sato TK, Castrucci AM, Rollag MD, DeGrip WJ, Hogenesch JB, Provencio I, Kay SA. Melanopsin (Opn4) requirement for normal light-induced circadian phase shifting. Science. 2002; 298(5601):2213-6.

3: Panda S, Provencio I, Tu DC, Pires SS, Rollag MD, Castrucci AM, Pletcher MT, Sato TK, Wiltshire T, Andahazy M, Kay SA, Van Gelder RN, Hogenesch JB. Melanopsin is required for non-image-forming photic responses in blind mice. Science. 2003 Jul 25;301(5632):525-7.

 

Escrevem este texto:

Profa. Maristela O.Poletini (ICB, UFMG, ex-Pós Doc do Lab. da Profa Ana Castrucci) e Maria Nathalia Moraes (Pós Doc e doutora formada pelo Lab. Profa Ana Castrucci).