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NOTA CULTURAL SET2017

“TÁCTICA Y ESTRATEGIA”

Alberto A. Rasia Filho

Mario Orlando Hamlet Hardy Brenno Benedetti Farugia (nascido 14/9/1920 e falecido 17/5/2009), conhecido Mario Benedetti, foi escritor e poeta uruguaio integrante da “Geração de 45”. Fez parte da equipe de redação do semanário local “Marcha”, dirigiu a revista literária “Marginalia” e participou do conselho editorial da revista “Número”, além de ser premiado pelo Ministério da Instrução Pública. Em 1971, fundou, com o “Movimento de Liberação Nacional – Tupamaros”, o “Movimento de Independentes 26 de Março”, coalizão de esquerda denominada “Frente Ampla”. Foi diretor do Departamento de Literatura Hispano-Americana da Faculdade de Humanidades e Ciências da Universidade da República, em Montevidéu. Após o golpe de estado uruguaio em 1973, esteve no exílio durante 10 anos. Foi laureado com o Prêmio Jristo Botev (Bulgária), doutor honoris causa pelas Universidades de Alicante e Valladolid, Prêmio Rainha Sofia de Poesia, Prêmio Ibero-Americano José Martí e o Prêmio Internacional Menéndez Pelayo. Uma de suas obras intitula-se “Táctica y Estrategia”, como segue:

“Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos

mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible

mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo                 ni sé
con qué pretexto
pero quedarme en vos

mi táctica es
ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos
no haya telón
ni abismos

mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple

mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin                 me necesites.”

Fonte:  Mario Benedetti, El amor, las mujeres y la vida. Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 1995.  https://educacao.uol.com.br/biografias/mario-benedetti.htm

NOTA CULTURAL JUL2017

O Corvo

Alberto A. Rasia Filho

O poema “The Raven” foi escrito pelo estadunidense Edgar Allan Poe (1809-1849) em 1845. Teve tradução para o português elaborada por Machado de Assis em 1883, embora seja provável que essa seja versão surgida a partir da francesa elaborada por Baudelaire (Mafra e Schrull, seer.ufrgs.br/translatio/article/download/36692/23759). Ainda assim, percebe-se tal angústia e fatalismo no texto que confere ao pássaro negro uma referência figurada indelével, como segue na parte selecionada do poema abaixo:

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais."

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: "Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."

Minh'alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro coa alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais."

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: "Nunca mais"...

(Fonte: Machado de Assis. O Almada & Outros Poemas. Ed. Globo, São Paulo, 1997).


NOTA CULTURAL JUN2017

VILA DA CACHOEIRA

Alberto A. Rasia Filho

Em 1807 inicia a viagem de D. João, Príncipe Regente, chegando primeiro à Bahia e, depois, no Rio de Janeiro, no ano seguinte, depois de dezenas de dias no mar. Para tanto, a interessante carta de despedida entregue ao povo português dava conta que: “... Vejo que pelo interior do meu reino marcham tropas do imperador dos franceses e rei da Itália, a quem eu me havia unido no continente, na persuasão de não mais ser inquietado... e querendo evitar as funestas consequências que se podem seguir de uma defesa, que seria mais nociva que proveitosa, servindo só de derramar sangue em prejuízo da humanidade, ... tenho resolvido, em benefício dos mesmos meus vassalos, passar com a rainha minha senhora e mãe, e com toda a real família, para os estados da América, e estabelecer-me na Cidade do Rio de Janeiro até à paz geral...”.

A Revolução Constitucionalista do Porto em 1820 exigiu o retorno da Família Real a Portugal. Assim, D. João VI e a maior parte da corte portuguesa retornou para a Lisboa, em 1821, depois de cerca de 13 anos no Rio de Janeiro. Embora a Independência do Brasil tenha oficialmente sido declarada em 1822, tal fato não foi aceito pelos lusitanos ou lusófilos que se encontravam na Bahia e menos ainda em Portugal. Prova disso é o que se percebe nas moedas de réis cunhadas nessa época. A partir de 1822, na Casa da Moeda do Rio de Janeiro, trocam-se as inscrições de anverso e as imagens existentes no reverso das moedas. Do anverso, até 1822, escrevia-se “JOANNES.VI.D.G.PORT.BRAS.ET.ALG.REX.” (“JOANNES SEXTUS DEI GRATIA PORTUGALIÆ BRASILIÆ ET ALGARBIORUM REX” ou D. João VI, por graça de Deus, rei de Portugal e do Brasil e Algarve) e no reverso estavam as armas do Reino Unido português e a inscrição “PECUNIA.TOTUM. CIRCUMIT.ORBEM.” (“O dinheiro circula pelo mundo todo”). A seguir, passa-se a empregar no anverso “PETRUS.I.D.G.CONST.IMP.ET.PERP.BRAS.DEF.“ (“PETRUS PRIMUS DEI GRATIA CONSTITUTIONALIS IMPERATOR ET PERPETUUS BRASILIÆ DEFENSOR” ou D. Pedro I, por graça de Deus, imperador constitucional e defensor perpétuo do Brasil) e no reverso, com o escudo das armas imperiais, encimado por coroa imperial e ladeados por ramo de tabaco e de café, inscrito “IN.HOC.SIGNO.VINCES.” (“Por este sinal vencerás”).

O mesmo não ocorreu imediatamente em Salvador onde se seguiu forjando moedas de X, XL e LXXX réis até 1823 ainda sob ordem portuguesa. Após a proclamação da Independência, Salvador seguia dominada e estrategicamente ocupada pelas tropas do Brigadeiro português Inácio L. Madeira de Melo. As lutas armadas entre os partidários brasileiro e português eram comuns e isso obrigou a saída de moradores da capital para o Recôncavo, em especial para a Vila Nossa Senhora do Porto da Cachoeira, onde foi instalado Conselho Interino do Governo. Eram líderes militares brasileiros o coronel Garcia Pacheco e o tenente coronel Rodrigo Antonio Falcão Brandão, a seguir Barão de Belém, posteriormente sob a coordenação do general Labatut. A decisão de instalar uma nova Casa da Moeda foi comunicada à D. Pedro I e instalada no Convento do Carmo, perdurando em atividade entre 07/06/1823 e 04/07/1823. Essa é a breve história da Casa da Moeda da Vila da Cachoeira. Servia para cunhar moedas de cobre no valor de LXXX réis, as quais pesavam cerca da metade do que costumeiramente se fazia e, interessante, tinham o desenho do Reino Unido no reverso, embora algumas com data de 1823 e outras recunhadas para ter a data mais evidente de 1821. Sobre isso pesam duas interpretações: (1) como os responsáveis pela cunhagem de moedas saíram às pressas de Salvador, levaram consigo o que puderam e os moldes disponíveis ainda com o escudo português. Ocorre, porém, que cunhar moedas com data de 1823 e manter referência ao domínio português não fazia nenhum sentido ao próprio movimento de independência. Por isso, e para ainda garantir a circulação dessas moedas adicionais, tiveram que recunhar o ano para um antes de 1822. E, (2) era preciso garantir o pagamento para as tropas, mesmo que de forma rudimentar e com moeda com cunho menos apurado e bem mais ‘fina’ do que o habitual.

A luta pela consolidação da independência terminou na Bahia em 2 de Julho de 1823, mas Portugal seguiu inscrevendo em suas moedas o Brasil associado a si, com legenda de anverso “JOANNES .VI.D.G.PORT.BR.ET.ALG.R.” até 1825.

Fonte: Maldonado, R. Catálogo Bentes de Moedas Brasileiras, MBA Editori Associati/Itália, 2014.


NOTA CULTURAL MAI2017

“QUIPUS”

Alberto A. Rasia Filho

A civilização no território que corresponde atualmente ao Peru havia surgido fazia milhares de anos quando, em 1532, os invasores espanhóis chegaram nesta parte da América do Sul e encontraram o grande império Inca. A extensão de terra era imensa, pequena parte da Colômbia, a maior parte do Equador, até norte da Argentina e do Chile, limitado em parte ao leste pela Cordilheira dos Andes. Cusco era considerada a capital, ponto de referência geográfico e onde estava o Templo do Sol (“Qoricancha”).

Os “quipus” foram o principal registro de informação da administração inca e eram elaborados por pessoas treinadas como “quipucamayocs” na língua quechua nativa. Tratam-se de arranjos de fios (de algodão ou pelo de camelídeos andinos) trançados e pendentes colocados em série, lado a lado, tendo um cordão primário horizontal como ponto de sustentação em comum. Esse arranjo envolve a estrutura de cada fio empregado (mais finos ou mais grossos) com cores diferentes, fios mais próximos uns dos outros ou separados formando um novo agrupamento, todos na posição vertical e com comprimentos que podem variar (em centímetros) obedecendo uma ordem ou posição de ocorrência. Os nós ocorrem ao longo da extensão de cada fio (variando, portanto, a posição do nó, a quantidade de nós e a forma dessa trama em cada unidade e em seu conjunto) além do aspecto terminal de cada fio (alguns com formato de um tufo de fiapos, outros com fios menores em diversas orientações ou com a ponta cortada e romba). Existem fios que estão colocados para cima da corda primária (que parecem ser menos frequentes), fios que surgem de um laço em forma de meia lua de onde saem os fios pendentes ou fios que servem como colaterais secundários amarrados aos pendentes principais. Há tipos diferentes de nós supostamente significando ou a continuação ou o término da informação. Cada um desses atributos representa uma informação e isso dá conta da quantidade de arranjos e a complexidade que se poderia alcançar com essas representações.

Considera-se que os “quipus” serviram como forma de numeração em sistema decimal, sendo os nós mais proximais os que representavam valor na ordem de dezena de milhar e os mais distais indicando as unidades. Não existir um nó em determinada posição poderia significar o zero. Assim, é possível que alguns “quipus” servissem para quantificar e registrar tributos, coisas e valores. Outros, para a população, permitiam distinguir quantos eram homens e quantas eram as mulheres, o tipo de trabalho e a produção. Alguns “quipus” muito compridos parecem ter servido para fazer registros ao longo do tempo (Museu Larco, Lima, Peru).

Poderia ser que alguns “quipus” formassem um logograma, ou seja, juntando-se símbolos e nós haveria de se representar uma palavra (ou parte dela) e seu significado. A veracidade dessa informação e sua interpretação é controversa. De fato, infelizmente, vários “quipus” não tem seu significado estabelecido até os dias de hoje. Isso em parte por causa do descuido com a conservação das peças ao longo dos séculos e por ter se perdido seu significado quando foram manipulados para serem retirados ou saqueados dos locais onde foram originalmente elaborados.


NOTA CULTURAL ABR2017

Prêmio Nobel em Fisiologia ou Medicina

Alberto A. Rasia Filho

O prêmio originalmente criado pelo químico e engenheiro sueco Alfred Nobel (1833-1896), inventor da dinamite e detentor de mais 355 patentes, foi idealizado para homenagear quem houvesse contribuído “para o maior benefício da humanidade”. Ainda em vida, em 1895, Nobel escreveu em seu testamento que haveria de deixar cerca de US$ 265 milhões para subsidiar os prêmios. No máximo três pessoas são nomeadas ou, então, representantes de instituições e os prêmios são conferidos pela Academia Real de Ciências da Suécia e pelo Comitê Nobel da Noruega. Até hoje, Marie Curie, descobridora dos elementos químicos rádio e polônio, foi a única mulher a receber dois desses prêmios, um de Física e outro de Química.

Exatamente com os termos “Fisiologia ou Medicina”, o prêmio correspondente é anunciado por comitê no Instituto Karolinska na Suécia. O primeiro, em 1901, foi conferido ao pesquisador alemão Emil Adolf von Behring "for his work on serum therapy, especially its application against diphtheria, by which he has opened a new road in the domain of medical science and thereby placed in the hands of the physician a victorious weapon against illness and deaths". A seguir, o britânico Ronald Ross (1902) recebeu-o "for his work on malaria, by which he has shown how it enters the organism and thereby has laid the foundation for successful research on this disease and methods of combating it". Em 1903, o dinamarquês Niels Ryberg Finsen, "in recognition of his contribution to the treatment of diseases, especially lupus vulgaris, with concentrated light radiation, whereby he has opened a new avenue for medical science". O russo Ivan Petrovich Pavlov, em 1904, "in recognition of his work on the physiology of digestion, through which knowledge on vital aspects of the subject has been transformed and enlarged". Em 1905, o alemão Robert Koch, "for his investigations and discoveries in relation to tuberculosis". E, em 1906, o prêmio foi compartilhado pelo italiano Camillo Golgi e o espanhol Santiago Ramón y Cajal, embora com conceitos distintos sobre as teorias do ‘reticularismo’ ou do ‘neuronismo’ por seus trabalhos pioneiros e "in recognition of their work on the structure of the nervous system". Somente não houve premiação nos anos 1915-1918 durante a Primeira Guerra Mundial, 1921, 1925 e 1940-1942 durante a Segunda Guerra Mundial.

Fonte: http://www.nobelprize.org


NOTA CULTURAL MAR2017

“FAZER UM FILME”

Prof. Alberto A. Rasia Filho

Federico Fellini foi um dos cineastas mais extraordinários da história. Nascido na cidade italiana de Rimini em 1920, falecido em Roma em 1993, deixou um legado de 24 filmes, o primeiro datado de 1950 (“Mulheres e Luzes”, título bastante adaptado do original “Luci del varietà”). Nesta lista encontram-se “A Doce Vida” (“La dolce vita, 1960), “Fellini Oito e Meio” (“Otto e mezzo, 1963), “Amarcord” (1973), “Cidade das Mulheres” (“La città delle donne”, 1980), “E la nave va” (1983) e, o último, a “A Voz da Lua” (“La voce dela Luna”, 1989).

“Fazer um Filme” (1980) é um dos livros de Fellini dedicado à sua esposa Giulietta Masina, atriz talentosa que atuou sob sua direção. Com característica autobiográfica, expõe momentos de vida desde a infância e como cada fragmento de memória, como interpretações da realidade, fez constituir ideias fantásticas, perceber os dilemas da religião, da lucidez intelectual e da sexualidade, da hipocrisia da sociedade e, em muitas das imagens descritas no livro e nos filmes, foram ornamentados com as imagens de personagens caricatos em si mesmos, com fisionomias e expressões peculiares. Deste livro, Fellini conta: “Não conheço os clássicos do cinema: Murnau, Dreyer, Eisenstein. Vergonhosamente nunca assisti a eles... pensei não ser talhado para a direção (de filmes). Faltavam-me o gosto pela opressão tirânica, a coerência, o pedantismo, a capacidade de trabalhar sem parar e tantas outras coisas, mas sobretudo a autoridade... Já trabalhando como roteirista, indo ao set para modificar as situações ou os diálogos, eu me admirava que o diretor pudesse ter um relacionamento destacado com as atrizes. Para mim era difícil escrever um diálogo naquela confusão, sentia-me muito desconfortável com o trabalho em grupo, todos juntos fazendo uma coisa e falando forte. E, no entanto, hoje só consigo trabalhar bem no meio da confusão, como quando era jornalista e escrevia os artigos no último momento, no caos da redação. Sinto-me mais à vontade nos filmes rodados em externas, ao ar livre. Nisso Rossellini foi um precursor... Seguindo Rossellini enquanto filmava Paisà, tudo me pareceu claro, uma feliz revelação, a de que se podia fazer cinema com a mesma liberdade, a mesma leveza com a qual se desenha e se escreve, era possível realizar um filme se divertindo e sofrendo dia após dia, hora após hora, sem muita angústia com relação ao resultado final, a mesma relação secreta, ansiosa e exaltadora que se tem com as próprias neuroses; e a de que os impedimentos, as dúvidas, as mudanças de ideia, os dramas, os cansaços não eram muito diferentes dos sofridos pelo pintor, quando procura uma cor na tela, e pelo escritor que apaga e reescreve, corrige e recomeça, à procura de um modo expressivo que, impalpável e fugaz, vive escondido entre mil possibilidades... É isso, parece-me que com Rossellini aprendi – um ensinamento nunca traduzido em palavras, nunca expresso, nunca transformado em programa – a possibilidade de caminhar em equilíbrio no meio das condições mais adversas, mais contrastantes e, ao mesmo tempo, a capacidade de usar em benefício próprio essa adversidade e esses contrastes, transformá-los num sentimento, em valores emocionais, num ponto de vista. Rossellini fazia isso, vivia a vida de um filme como uma aventura maravilhosa que deve ser vivida e contada. Seu abandono nos confrontos da realidade, sempre atento, límpido, fervoroso... permitia-lhe capturar, fixar a realidade em todos os espaços, olhar o interior e o exterior das coisas, desvendar o que a vida tem de inalcançável, de misterioso, de mágico. Por acaso o neorrealismo não é isso?... E, assim, fazendo filmes só me proponho a seguir esta inclinação natural, a de contar histórias por intermédio do cinema, histórias que fazem parte de minha natureza e que gosto de narrar numa inextrincável mistura de sinceridade e de invenção, de vontade de chocar, de me confessar, me absolver, de um desejo despudorado de agradar, de interessar, de ser a moral, o profeta, a testemunha, o palhaço... de fazer rir e comover. Precisa de outro motivo?”

Fonte: Federico Fellini. Fazer um filme. Civilazação Brasileira, Rio de Janeiro, 2011.


NOTA CULTURAL FEV2017

Debret e a “Viagem Pitoresca e História ao Brasil”

Prof. Alberto A. Rasia Filho

Jean Baptiste Debret (1768-1848), pintor francês do período neoclássico, compôs a “Missão Artística de 1816” ou “Missão Artística Francesa”, organizada a pedido do rei Dom João VI e chefiada por Joaquim Lebreton, contando adicionalmente com arquiteto, paisagista e escultor. Debret esteve no Brasil até 1831 e é tido como o pintor da família real e da vida brasileira principalmente durante o Primeiro Império. Debret elaborou em verde o contorno de um losango amarelo, o que veio a representar parte da bandeira brasileira, e foi um dos inauguradores da “Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios” no Rio de Janeiro. Neste sentido, a “Aula Pública de Desenho e Figura, estabelecida por carta régia de 20 de novembro de 1800 foi a primeira ação oficial que se tem conhecimento para que se estabelecesse o ensino da arte no Brasil. Este, porém só teria início com a criação da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, por Decreto-Lei de D. João VI, em 12 de agosto de 1816. Durante os primeiros dez anos o que temos são apenas algumas aulas ministradas por Debret e Grandjean de Montigny numa casa do centro da cidade que os dois artistas alugaram para esta finalidade. Em 1826, já com o prédio próprio projetado por Grandjean de Montigny tem início o ensino oficial das artes no Brasil, de acordo com o modelo da Academia Francesa, sendo que a Escola passa a chamar-se Academia Imperial das Belas Artes. Com o advento da República, a Academia passará a chamar-se Escola Nacional de Belas Artes e, a partir de 1971, será denominada Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, nome que mantém ainda hoje.”

(http://www.eba.ufrj.br/index.php/eba/institucional)

 

Em 1839, Debret terminou de publicar uma série de gravuras agrupadas em tomos intitulados "Voyage Pitoresque et Historique au Brésil” ou “Séjour d'un Artiste Français au Brésil". Dedicado “Aos Senhores Membros da Academia de Belas Artes do Instituto de França”, a obra recomendava: “Não vos deveis ter esquecido, senhores, de que, impressionado com o êxito da Academia do México, o senhor de Marialva, embaixador português em Paris, cujo desejo de criar, por sua vez, uma Academia Brasileira, nasceu das persuasivas conversações do Sr. de Humboldt; deveis lembrar-vos também de que, em 1815, o senhor Le Breton, seu amigo, nessa época secretário perpétuo de vossa classe, ciente do projeto, teve a coragem de realizá-lo de parceria com o senhor Taunay, seu colega de Instituto, que se devotou a essa expedição de que participei na qualidade de pintor de história.”

Debret procurou detalhar cada cena que via conforme se lhe apresentava, além de acrescentar texto correspondente às imagens, o que forma documento geográfico e biológico e, principalmente, sobre os habitantes e a organização social brasileira no período. Conforme encontra-se descrito ali (com a grafia da época da tradução), “Os limites políticos do Brasil são: ao norte a República da Colômbia, as Guianas francesas e espanhola; a leste o Oceano; ao sul, a República de Buenos Aires; e ao oeste o Paraguai, o Perú e a Colômbia... Divide-se o país em 18 províncias: Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Baía, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina, São Pedro, Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais.” Sobre o “Caráter do Brasileiro”, no entanto, uma série de interpretações moldadas com base na visão da elite francesa da época se fazem perceber nitidamente na avaliação sociológica: “O solo variado do Brasil apresenta suscessivamente as diferentes temperaturas europeias, cuja influência se faz sentir no caráter moral e físico do habitante a ela submetido desde o nascimento. Essa variedade de temperatura explica, também a variedade notável que existe entre os brasileiros de cada uma das províncias dêsse vasto império. O brasileiro, geralmente bom, é dotado de uma vivacidade que se vislumbra nos seus olhos pretos e expressivos, feliz disposição natural que êle aplica com êxito no cultivo das ciências e das artes. Sua tendência inata para a poesia inspira-lhe o gôsto do belo ideal, do sobrenatural nas suas narrativas, principalmente quando fala de seu país; seu amor-próprio, que nisso se compraz, torna-o em geral contador de histórias com as quais procura causar impressão e provocar o espanto e a admiração do auditório. Suas faculdades naturais declinam na proporção da menor altitude em que habita. Mais fraco, então, e conservando apenas a vivacidade do espírito brasileiro, nos outros unida à força, não passa de um homem fértil em projetos, subjugado pelos seus desejos, que se sucedem demasiado rapidamente e cuja execução êle abandona por completo, julgando-a frivolamente penosa ou aborrecida. Nem por isso se mostra menos exigente quanto à perfeição dos objetos submetidos à sua crítica; mas é suficiente satisfação para seu amor-próprio descobrir-lhe os defeitos. É, no entanto, paciente nos trabalhos manuais. Aliás, gosta bastante do repouso, principalmente durante as horas quentes do dia, desculpando-se sem cessar com sua má saúde, de que parece afligir-se no momento mas que esquece logo para divertir-se com uma piada ou uma maledicência engenhosa cujo segrêdo recomenda ‘pro-forma’...

 

O ancião, no Brasil, vivendo retirado na sua residência rural, tem a voz dura por hábito e a conversa aguda por necessidade pois passa a existência a fiscalizar empregados que tentam enganá-lo e escravos preguiçosos e indolentes que procuram não fazer nada. Mas seu coração não sofre dessa tendência do espírito, pois mostra-se sempre generoso e hospitaleiro. O habitante do Brasil é bem feito; anda de cabeça erguida, mostrando assim sua fisionomia expressiva; as sobrancelhas são bem marcadas, pretas como os cabelos; os olhos grandes e vivos, os traços móveis e o sorriso agradável. Sua estatura geralmente pouco elevada dá-lhe uma grande flexibilidade e muita agilidade. Veste-se, na cidade, com um asseio meticuloso; cuida principalmente dos sapatos, pois não ignora que tem o pé pequeno e bem feito.

 

O luxo europeu o seduz: compraz-se em adotá-lo e, nas capitais das províncias, não é mais estranho a nossos costumes. Nas reùniões brasileiras a dança e a música brilham entre elegantes ‘toilletes’ imitadas da moda francesa mais recente... Eis o homem que em três séculos viveu toda a civilização da Europa e que, instruído por seu exemplo, poderá brevemente apresentar rivais no talento, assim como a América do Norte lhe apresenta modêlos de virtude

 

Fonte: Debret, J.B. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. Tomo I. Livraria Martins Editora, São Paulo